sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Impressões: Dublagem X Legenda


Todos vocês já participaram ou ouviram discussões sobre esta tensão. Pessoas afirmando, no alto de suas sabedorias, que não assistem filmes dublados porque são ruins. Que o bom mesmo é assistir o filme legendado. Já deve ter visto comentadores, críticos e jornalistas afirmando coisas semelhantes. Que  a dublagem só é preferida pelos de classe mais baixa, por aqueles que não tem educação formal e, pasmem, já ouvi afirmarem que é também preferível pelos preguiçosos e pelos analfabetos.
Eu digo em alto e bom som, sem constrangimento: “Eu prefiro!”
Acredito que muito destas opiniões coletivas deve-se a uma reprodução de estereótipos.  
Sim, é verdade que a dublagem interfere no som original. Sim, ela modifica a estrutura da linguagem. Palavras, termos, frases são adaptados. Mas isso não é um fator negativo. Realmente o ideal seria você assistir o produto no original, sem legendas e sem dublagens. Mas quem o faz ? Poucos, muito poucos. Não é só por que não é oferecido nos cinemas. Boa parte tem seus DVD´s coma cesso ao menu e podem, por livre vontade de escolha, retirar as legendas e\ou a dublagem. E porque não o fazem ?
Bem.... Provavelmente, por mais que estudem a língua estrangeira, podem não ter a fluência necessária para acompanhar os diálogos e se concentrar nas cenas do filme.
Ora, muitos afirmam que as pessoas não gostam das legendas por alguma questão cognitiva. Apesar de suporem uma inferioridade dos adeptos da dublagem, tudo não passa de um processo de socialização. As crianças e jovens, por mais que já saibam ler e se comunicar na língua materna, demoram algum tempo para se costumarem a acompanhar uma legenda. É um processo de adaptação, condicionamento e técnica.

Acredito que seja um processo semelhante aos dos tradutores.

Tem pessoas que são fluentes em inglês e até são professores deste idioma (de cursinho ou de colégio) mas não conseguem satisfatoriamente traduzir simultaneamente uma palestra. Complicam-se, gaguejam, se perdem. Porque ? ora, por que não estão acostumados. Não condicionaram suas capacidades cognitivas para o processo de tradução simultânea. É uma questão de técnica e de aprendizagem (condicionamento) .
A grande maiorira dos “defensores” das legendas – sem menosprezo – não são versados na linguagem estrangeira, não são nativos ou dominam o idioma ao ponto de seus ouvidos estarem preparados para perceber as variações da língua. Na verdade, às vezes, nem sabem nada do idioma. Mas afirmam categoricamente: “Nossa dublagem é horrível! Só assisto filme legendado, blá, blá, blá...”
As vezes ouço menção à falta de cultura do brasileiro. Como se nossa cultura (ou a falta dela) fosse o responsável pelo gosto pela dublagem. Nos EUA que são aficionados  pelo som dos filmes, tendo em vista os vários prêmios técnicos vinculados ao som no Oscar, só assistem filmes dublados! Lá não tem esta oferta de legendas como é aqui no país. Eles sabem muito bem o que fazem! A maioria dos filmes são Dublados!
As pessoas esquecem que a linguagem é um veículo de acesso e mergulho na cultura (muitas vezes, de Dominação). Alguns sociólogos já vêem debatendo isso. O Benjamim Baber fala de uma “Cultura McWorld”, uma mundialização da cultura e a existência de “Cavalos de Tróia”, todos vinculados com a questão da língua e da penetração de valores culturais. um filme legendado se aproxima destes esquemas...
Vocês já se perguntaram porque nos filmes de Hollywood é comum a ocorrência de adaptações transnacionais ? Aqueles filmes originários de outros países que ganham “ versões nacionais”, como “The Ring” (O Chamado)?. Eles não assistem a versão original – por melhor que seja – preferem a aversão americanizada (costumo usar o termo “americanalhada”, ^_^). (É obvio que refiro-me a maiorira da audiência...)
Outro fator que as pessoas se esquecem de analisar – e talvez os profissionais de Letras fiquem muito omissos em explicar – é que as línguas não possuem a mesma estrutura. Não se escreve da mesma forma em português e inglês, logo é impossível haver traduções perfeitas de uma língua para a outra. Toda tradução é uma adaptação, cuja função é desenvolver o entendimento e a compreensão dos termos.
Os sons também são diferentes de uma língua para a outra, logo a abertura da boca e a posição da língua (o órgão!) é diferente para termos o mesmo sentido.  Enquanto em português nós dizemos “Já”, os americanos dizem “Already” e os franceses dizem “Déjà”. As posições de abertura são totalmente diferenciadas. A tradução deve levar isso em consideração se for uma dublagem, por exemplo.

As legendas, apesar de possuírem uma limitação semelhante – e espaço e caracteres – por exemplo, são mais recorrentes nos erros de interpretação. Quem assisti aos canais de séries norte-americanas, como Warner e Sony, talvez já tenha se deparado com algumas traduções cujas construções gramaticais se tornem estranhas na leitura. Ou, nas comédias, algumas piadas são ininteligíveis durante a leitura do texto. Ora, o contexto cultural é definidor do fator cômico. O Riso  - e aquilo que o provoca – variam de cultura para cultura. Termos, chistes, piadas e até xingamentos podem passar completamente desapercebidos entre os não nativos de um idioma. Quem resolve isso? a dublagem!
È ai que entram os tradutores – bem formados! – que adaptam os sentidos e não as palavras. Traduzem a piada para que ela quase o riso ou a comoção de entendimento, mesmo que não tenha nada próximo ao original.
Lembro-me aqui das aulas de literatura na sexta série (atual sétimo ano) quando minha professora (num trabalho coletivo com a professora de inglês) nos apresentou ao “O corvo” de Edgar Allan Poe. A tradução de Machado de Assis era deliciosa. A poeticidade, a musicalidade o ritmo estavam todos lá. Mas quando, na aula de inglês, entramos em contato com o poema original, minha grande surpresa: as palavras traduzidas eram diferentes e os sentidos eram similares. Se você pegar os tradutores de poemas nos livros atuais (e lembro aqui das musicas dos Hobbits nos livros do O Senhor do Anéis) as traduções são desestimulantes, o ritmo se perde, a musicalidade vai embora, tudo para se adequar aos termos originais.
E aí nos perguntamos: áte que ponto uma tradução é uma boa tradução ? Não tem resposta!
Outro fator que gostaria de mencionar é a questão social. O mercado de tradução envolve números bem diferentes quando se fala de dublagem e de legenda. As legendas praticamente envolve um par de profissionais o tradutor e seu revisor. As dublagens geram muito mais empregos. São os atores, diretores de dublagem, os produtores fonográficos, além daqueles dois primeiros responsáveis pela tradução e pela revisão. Se você acompanhar as dublagens da Disney, verá como o processo é rigoroso e técnico. Falseando completamente a idéia de dublagem ruim. Os timbres (não sei é adequado o termo) das vozes são idênticas no inglês e nos idiomas traduzidos. O diretor responsável por isso, busca vozes semelhantes de modo que ouvir um personagem num idioma ou em outro, parece-nos que foi a mesma pessoa que dublou ambos. A ressalva fica para aqueles convites às celebridades e atores globais que, muitas vezes, não acompanham o nível técnico dos dubladores profissionais e deixam muito a desejar. Seja pela falta de experiência com a atuação da voz, seja pela familiaridade do público com ela, interferindo na configuração imaginária do personagem, durante a audiência do produto.
Um último ponto que trago é uma questão estética.
Num filme dublado, seus olhos possuem mais tempo para perceber as nuances de uma interpretação, as riquezas da construção do cenário ou da locação, os enquadramentos da câmera e suas mudanças de montagem, a própria fotografia e os efeitos especiais, quando for o caso. As legendas limitam seu acesso a estes fatores. A duração de um quadro é o mesmo, por favor.... Num filme dublado, seus olhos terão um tempo( t¹) para absorver a cena. No legendado, devido ao poder persuasivo das palavras (quando você dirige ou anda de ônibus, você lê coisas, simplesmente porque elas passaram na frente dos seus olhos e não porque as quis ler), seu tempo é reduzido em algum grau (t¹/L, onde “L” é o tempo que você leva para ler a legenda). Isto é, há uma redução do seu tempo de apreciação da imagem, podendo chegar ao ponto de não ler a imagem e sim o texto.
Tem coisa pior e mais agressiva visualmente que aquelas legendas que invadem o meio da tela e ficam sobre os personagens ? é uma verdadeira violência visual, ou seja, você não vê a interpretação do personagem, as mudanças de enquadramento ou movimento de câmera, só vê a maldita legenda e –devido ao condicionamento – seus olhos a seguem como cães atrás de cadelas no cio. É incontrolável!!!!

Treino bastante meu inglês e meu francês assistindo os filmes no original e perdendo um ou outro termo. Mas quando quero me entreter e deliciar-me com uma produção audiovisual, sem a preocupação de estudar, quero mesmo é assisti-lo dublado!


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