sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

O Riso como arma de contestação ou naturalização de discursos

O Riso como arma de contestação ou naturalização de discursos


Em tempos de termos como “politicamente correto”, “mimimi”, “problematização” e muitos discursos superficiais em comentários acalorados nas redes sociais, entender um pouco sobre alguns conceitos relacionados ao humor talvez se faça necessário.
O polêmico filósofo Zizeck afirma em um de seus vídeos que o politicamente correto é uma forma de totalitarismo. Frank Cho alegou sofrer censura na DC por ter seus desenhos editados. Várias pessoas, diante da crítica ou contestação de sua expressão, alegam estar sendo censuradas. Não, quanto à última afirmação, não se trata de um dado empírico, mas poderia ser verificável por qualquer pesquisador que se interesse pelo assunto.
A questão é, além do desconhecimento sobre o que realmente significa censura, parece haver uma certa desonestidade intelectual para entender que escolhas editoriais nada têm a ver com censura. Nem mesmo o que as pessoas entendem como autocensura, no caso de alguns artistas, chegaria perto disso, porque não existem ferramentas legais ou qualquer argumentação plausível que indique que essas pessoas serão presas, exterminadas, punidas, torturadas por publicarem ou expressarem o que quer que seja.
O que existe é consequência, que nos faz diretamente responsáveis pelo que divulgamos. Caso ofenda alguém, existem medidas legais para lidar com o problema, mas não há, no meio editorial brasileiro ou em grande parte dos países ocidentais, censores que proíbam que algo seja publicado previamente. O que existe são escolhas editoriais baseadas em performances de lucro, existe um sistema capitalista que prevê que certas produções agradam ou não alguns grupos e baseados nisso, os editores decidem o que será publicado.
Arte de Motoca
Maíra Colares
Obviamente, alguns meios possuem inclinações políticas, religiosas, raciais, sociais, que podem determinar a linha editorial de uma publicação. Ainda assim, vale lembrar que, quando se trata de liberdade de expressão, os conceitos mais amplamente difundidos no ocidente, tratam de garantir e proteger a liberdade de expressão individual como um direito inalienável de ter acesso à informação. Ou seja, publicações em meios que visam lucro, não podem requerer para si a mesma amplitude dos direitos individuais.
De qualquer forma, apesar da interpretação de certas manifestações serem muito pessoais e subjetivas, vale lembrar que o humor não é apenas uma forma de provocar escárnio e ridicularizar comportamentos. O professor e cartunista premiado Osvaldo da Costa, em seu livro Uma Ovelha Negra na Produção Midiática, lembra que o humor também pode ser uma arma de contestação política:
“A linguagem do humor – arma política contra regimes repressivos – é também considerada subversiva e de contracultura – pode ser narrada por meio do teatro, da música, da literatura, da imprensa, do cinema e do desenho de humor. Tem como finalidade provocar o riso ou o sorriso. O risível nas piadas e paródias, como imitação burlesca, era um dos recursos mais populares entres os bufões na Antiguidade. Rir de si mesmo e do seu semelhante, seja em tom jocoso ou de escárnio, é um traço marcante da natureza humana desde os tempos mais remotos.”
Salsicha em Conserva
https://www.facebook.com/salsichaemconservahq/
O escritor e semiólogo Umberto Eco, conhecendo o poder inquietador do riso, dedicou uma das de suas maiores obras a ele. Em O nome da Rosa, thriller ambientando na França medieval, a luta dos monges beneditinos do mosteiro de Melk para proteger um manuscrito nunca publicado de Aristóteles acaba causando inúmeras mortes e deixando um rastro de sangue. De acordo com as convicções dos monges mais conservadores do romance, o riso seria algo muito próximo da morte e da corrupção do corpo, mas o filósofo grego, em seu livro que só existiu na ficção, alertava para o poder libertador do riso como um veículo da verdade.
“O riso desvia, por alguns instantes, o vilão do medo. Mas a lei impõe-se através do medo, cujo nome verdadeiro é temor de Deus. E deste livro poderia partir a centelha luciferina que transmitiria ao mundo inteiro um novo incêndio: e o riso designar-se-ia como a arte nova, ignorada até de Prometeu, para anular o medo. Ao vilão que ri naquele momento, não importa morrer: mas depois, cessada a sua licença, a liturgia impõe-lhe de novo, segundo o desígnio divino, o medo da morte. E deste livro poderia nascer a nova e destruidora aspiração a destruir a morte através da libertação do medo. E que seríamos nós, criaturas pecadoras, sem o medo, talvez o mais provido e afetuoso dos dons divinos?”(ECO,1980: 359)
Sendo então o riso capaz de nos guiar no caminho de descobertas sobre verdades que talvez nossos governantes prefiram que não tomemos conhecimento, não é de se espantar que tantos cartunistas tenham sido ameaçados, torturados ou mortos durante regimes ditatoriais ocorridos na América Latina, como foi o caso do autor de El Eternauta. Héctor Germán Oesterheld foi sequestrado, assim como quatro de suas filhas, duas delas grávidas, durante o regime militar da Argentina. Apesar de El Eternauta ser uma história de ficção, o conteúdo de sua segunda parte apresenta teor político, o que teria causado o desaparecimento de um dos autores mais consagrados de histórias em quadrinhos da América Latina.
https://www.facebook.com/pg/sirlanneynogueira/photos/
Todo mundo erra – por Sirlanney e Clara Averbuck Magra de ruim
Muito embora estejamos acostumados a associar o riso ao escárnio e à representação de estereótipos que acabam perpetuando certas opressões, entendemos que sua função crítica foi e ainda é extremamente necessária quando se trata de contestar sistemas políticos ou situações com as quais não concordamos. Porém, o que talvez não estejamos acostumados a perceber, é que o riso também pode ser uma forma de naturalizar comportamentos que são recriminados socialmente.
O professor, pesquisador e um dos diretores da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial – ASPAS, Amaro Braga, tem se dedicado à pesquisa de tiras cômicas e histórias em quadrinhos que, ao abordarem temas como religião, sexualidade e gênero, façam isso como uma forma de naturalizar comportamentos e práticas, ao invés de perpetuarem um discurso de ódio e preconceito contra grupos minorizados.
Em sua apresentação no XVII Congresso Internacional de Humor Luso-Hispânico, na UNESP/Araraquara, Amaro usou exemplos de tiras e HQ que, além de abordar temas que os professores sentem dificuldade de trabalhar em sala de aula, fazem isso de forma cômica e natural, o que propiciaria aos educadores acessar seus alunos de formas mais tranquila e leve, principalmente se tivermos em mente que os alunos provavelmente já têm acesso a estes trabalhos via internet e redes sociais.
https://www.facebook.com/transistorizada/
Portanto, ainda que estejamos mais acostumados a entender o humor como uma forma de humilhar certos grupos, carecemos mesmo é de boa interpretação e melhor desenvolvimento de nossas capacidades cognitivas. Carecemos também de uma educação que nos ensine que nenhuma produção cultural é desprendida de seu contexto e que conhecer previamente o posicionamento de quem produz é fundamental para interpretar certas obras.
Por isso, vou comentar rapidamente dois exemplos apenas para ilustrar o que já mencionei acima.
Quem acompanha a página Motoca, já sabe que o posicionamento da artista está alinhado com um pensamento que privilegie a visibilidade de grupos minorizados, no sentido de promover reflexões que possam favorecer maior empatia por parte de quem costuma oprimir os outros. Quando da polêmica  – que sequer deveria ter virado notícia – do turbante, a página postou essa ilustração/charge que foi interpretada de maneiras diferentes por pessoas de convicções contrárias. Minha leitura – confirmada pela própria artista – foi que as pessoas que apoiaram a hashtag #vaiterbrancadeturbantesim – ou algo do gênero – não atentaram para o fato de que o problema vai muito além de poder ou não usar um pano na cabeça, já que os maiores representantes de culturas que fariam uso de turbante no Brasil, são assassinados, apedrejados… Uma forma de dizer que a cultura negra é popular, mas os negros não.
Turbante
https://www.facebook.com/colaresmaira/
No entanto, uma quantidade grande de pessoas interpretou como uma forma da artista dizer que ninguém deveria se importar com um turbante, porque existiam problemas maiores, como se ela estivesse endossando a fala do “estão fazendo mimimi, a pessoa usa o que quiser”, quando na verdade, essa nem é a questão do problema.
Uma mesma ilustração gerou leituras com interpretações diferentes, tal qual aconteceu com esse post do Sensacionalista, sabidamente satírico, mas ainda assim, também com posicionamento mais alinhado com os movimentos sociais, e que foi problematizado por algumas mulheres como sendo uma piada com um assunto sério, quando se trata na verdade de uma forte crítica a um comportamento naturalizado. Nesse sentido, o que se buscou aqui foi chamar a atenção para algo que é naturalizado e não deveria ser.

Longe de encerrar a discussão, porque é um tema polêmico, o objetivo aqui é justamente lembrar que discussões e análises superficiais não contribuem para que problemas sérios sejam sanados. O humor também é coisa muito séria e sua produção é necessária para que certos assuntos continuem sendo abordados de forma crítica, ainda que por meio do riso.
https://www.facebook.com/mundomeioroxo/
Todo mundo meio roxo
DA COSTA, Oswaldo. UMA OVELHA NEGRA NA CULTURA MIDIÁTICA: Inovações do Humor Gráfico na imprensa alternativa brasileira. São Caetano do Sul. Universidade Municipal de São Caetano do Sul. 2012. Disponível em: http://repositorio.uscs.edu.br/handle/123456789/256
ECO, Umberto. O nome da Rosa. São Paulo. Record. 2009
Dani Marino
Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Minas Nerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Imagens: Mesa redonda: Inovações tecnológicas e ensino de Sociologia.


Vídeo com os primeiros minutos, clique aqui.

Mesa redonda: Inovações tecnológicas e ensino de Sociologia.
Com Alex Gomes (Cin-UFPE) e Amaro Braga (ICS-UFAL).
Coordenação: Túlio Velho Barreto (FUNDAJ)




terça-feira, 13 de setembro de 2016

seminário Sociolog@ndo na UFPE




O seminário Sociolog@ndo: ensino de sociologia e suas conexões, é uma iniciativa do Núcleo de Pesquisa em Ensino e Sociologia (NUPESO/UFPE), que tem por objetivo discutir o ensino de sociologia a partir da produção da área e dos projetos de intervenção construídos no Programa Institucional de Iniciação a Docência (PIBID/Sociologia). 

O evento pretende aproximar as discussões do campo da profissionalização docente com as diversas práticas no ensino de sociologia. Dessa forma, espera-se contribuir na formação de licenciandos em Ciências Sociais e professores da educação básica no que se refere ao processo de ressignificação da prática docente e do reconhecimento do seu caráter plural. 




PROGRAMAÇÃO

27 DE Setembro | Terça
Credenciamento - 10:00 - 13:00
Abertura - 14:00 -14:30

Palestra de abertura |14:30 – 15:30 |
A profissionalização docente e o ensino de sociologia.
Profa. Silke Weber (UFPE)

Apresentação cultural |15:30 - 16:00 |

Mesa redonda |16:00 - 17:30 |
A questão racial e o ensino de Sociologia.
Liana Lewis (UFPE): Educação e Relações Raciais: Caminhos para desafiar o racismo na escola.
Francisco Jatobá (UFPE): Universidade e ações afirmativas: o que pensar para além das cotas?
Cristiano França (FACOL): Sociologia e questões raciais: desafios pedagógicos para @s professor@s de sociologia no Ensino Médio.
Coordenação: Silke Weber (UFPE)

Apresentações Orais |19:00 – 21:00|
Coordenação: Erinaldo Carmo (UFPE) e Ivan Fontes Barbosa (UFPB)
28 DE Setembro | Quarta

Mesa redonda |14:00 -15:30|
Inovações tecnológicas e ensino de Sociologia.
Alex Gomes (UFPE): Novas tecnologias e a educação.
Alex Vailati (UFPE): O uso do audiovisual no ensino.
Amaro Braga (UFAL) :A linguagem dos quadrinhos nas aulas de sociologia.
Coordenador: Túlio Velho Barreto (FUNDAJ)
Mesa redonda |15:30 -17:00 |
Gênero, sexualidade e diversidade no ensino e na formação de professores.

Marion Quadros (UFPE): Antropologia, Gênero e Sexualidade na formação docente.
Marcelo Miranda (UFPE): Gênero, sexualidade e Sociologia na formação docente.
Ana Claudia Rodrigues (UFPE): Diversidade e interseccionalidade na formação docente.
Coordenação: Maria do Carmo Gonçalo Santos (UFRPE/SERRA TALHADA)

Palestra |18:00 -19:00 |
Linguagem como prática social: analisando gêneros midiáticos da cultura popular urbana paulista.
Profa. Anna Bentes (UNICAMP)

Mesa redonda |19:00 - 20:30 |
Experiências institucionais no ensino de sociologia.
Alexandre Zarias (FUNDAJ) – Mestrados Profissionais para o Ensino: percursos da Sociologia.
José Hermógenes Moura (UNIVASF)- Experiências em temas transversais no ensino de sociologia: PIBID/UNIVASF - Drogas na Escola e a Prevenção de Danos.
Vânia Fialho (UPE) – Ensino, Pesquisa e Extensão na Licenciatura em Ciências Sociais: o tripé como componente curricular.
Coordenação: Ivan Fontes Barbosa (UFPB)
29 DE Setembro | Quinta

Mesa redonda | 14:00 – 15:30 |
Cultura, movimentos sociais e educação.

Cibele Rodrigues (FUNDAJ): Educação popular, cultura, movimentos sociais e aprendizagens.
Cezar Candeias (UFAL): Culturas Juvenis e o Currículo: pensando elementos para o Ensino da Sociologia.
Fernanda Alencar (UFPE/CAA): Educação do campo e direito: diversidade e inclusão no campo.
Coordenação: Cristiano França (FACOL)

Mesa redonda | 15:30 -17:00 |
O papel da linguagem no ensino.
Suzana Cortês (UFPE ) : Linguagem e ensino: dialogado com as experiências do PIBID Letras Português.
Rosane Alencar (UFPE): Linguagem, conversação e o ensino de sociologia.
Fabiele Stockmans De Nardi (UFPE): Ler, descrever, interpretar: pensando o sentido pelo viés da análise do discurso.
Coordenação: Conceição Lafayette (UFPE)

Mesa redonda | 17:00 – 18:30 |
Trabalho docente, valores e ensino de sociologia.
Conceição Lafayette (UFPE): Práticas educativas na perspectiva do cuidado: a extensão universitária na Escola.
Simone Brito (UFPB): O esquecimento da politica: vocação  e experiência moral na formação de professores.
Sidartha Soria (UFPE): Educação e trabalho: o olhar dos docentes de humanidades em universidades interiorizadas no Nordeste.
Coordenação: Marcelo Miranda (UFPE)

Palestra de encerramento | 18:30 -19:30 |
Profa. Alice Botler (UFPE): Violências e conflitos na escola: desafios para a formação do educador.

Coffee-break | 19:30 -20:00 |
Lançamentos | 20:00- 20:30 |
Revista Idealogando e Idealogando Visual
Apresentação cultural | 20:30 – 21:00 |

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Entrevista para a Feira do Livro de Frankfurt

PROFESSORES LEITORES DE HQS CONSEGUEM MELHOR RESULTADO

POR IVANI CARDOSO
Pesquisas demonstram que não há correlação entre o baixo rendimento dos alunos e leitura das HQs (isto é, as HQs não são deseducadoras como muitos pensam). Além disso, os dados revelam que há uma relação entre a não leitura das HQs e o baixo rendimento, isto é, as notas mais baixas estão entre os alunos que não leem quadrinhos. As afirmações são de Amaro Braga, quadrinhista e sociólogo, um dos autores da obra “Quadrinhos & Educação volume 3: Fanzines, espaços e usos pedagógico”.Estudioso do tema e leitor voraz de quadrinhos, ele diz que o gênero é muito utilizado na escola em vários países, não apenas como indicativo de leitura paradidática, mas como leitura principal. Amaro afirma que os professores no Brasil ainda têm muito preconceito na hora de adotar HQS na sala de aula, muitas vezes até por desconhecimento. Para os educadores que desejam entrar nesse mundo adorado pelos alunos, ele dá algumas dicas: Pedir a ajuda dos alunos para selecionarem o material; ler bastante aquilo que circula no mercado e fazer anotações em busca de inter-relações com seus temas de aula. E, principalmente, estar disposto a promover estas interseções didáticas com o material escolar”. Amaro é licenciado e bacharel em Ciências Sociais, Especialista em História da Arte, Especialista em Artes Visuais, Especialista em EAD, Mestre e Doutor em Sociologia. Já publicou seis livros sobre quadrinhos e nove álbuns.  Em 2007, ganhou o HQMIX de melhor contribuição para os quadrinhos pelo álbum “Passos Perdidos, História Desenhada” sobre a presença judaica em Pernambuco. É professor Adjunto no Instituto de Ciências Sociais da Universidade Federal de Alagoas. Seu blog:www.axbraga.blogspot.com.br
Há estudos comprovando a eficácia das HQs na sala de aula?
Sim, há.  O conselho nacional dos Trabalhadores em Educação – CNTE, publica todos os anos um relatório chamado “Retrato da Escola”, no qual constam diversos levantamentos sobre temas relevantes. Entre eles há avaliação do porcentual de proficiência (nível das notas) entre estudantes leitores de quadrinhos e não leitores. Os levantamentos têm demonstrado que não há correlação entre o baixo rendimento dos alunos e leitura das HQs (isto é, as HQs não são deseducadoras). Além disso, os dados mostram que há uma relação entre a não leitura das HQs e o baixo rendimento, isto é, as notas mais baixas estão entre os alunos que não leem quadrinhos. E ainda, que professores que leem quadrinhos conseguem maior rendimento de seus alunos em comparação com os professores que não leem. Há diversos outros estudos, mais qualitativos (em forma de dissertação de mestrado e teses de doutorado) que realizam estudos de recepção mostrando a eficácia dos quadrinhos na sala de aula.
Que tipo de HQs são os mais indicados para a aprendizagem?
Não existe um tipo definido. Todas as HQs podem e têm potencialidades para o uso pedagógico. Os quadrinhos e a linguagem dos quadrinhos são recursos didáticos que podem ser explorados por quaisquer disciplinas e conteúdos, basta o professor ter conhecimento do material e desenvolver uma ação que o envolva. Se tivéssemos que elencar um tipo, seria aquele que o aluno já anda lendo. Se ele já ler uma HQ específica, é meio caminho andado para que o processo de aprendizagem ocorra, pois, o professor apenas despertará a compreensão sobre os fenômenos de interesse da disciplina. O aluno, ao conhecer a história ou o material quadrinizado pode, inclusive, participar com mais proeminência de um debate ou discussão e realizar a correlação entre a leitura e o conteúdo focado na aula.
Que conteúdos mais favorecem o uso dos quadrinhos?
Não existe um mais favorecido. Todos têm a mesma potencialidade. Agora, ultimamente, tem sido mais frequente aqueles conteúdos desenvolvidos pelos professores de português (no campo da linguística), história e literatura (devido às adaptações literárias).  Mas qualquer conteúdo pode ser efetivado. Já foram publicados no Brasil, mangás (quadrinhos japoneses) que ensinam estatística, cálculo, genética e processamento de dados (Só para citar os mais diferentes), tudo em quadrinhos.
Quando saiu seu livro? Como surgiu a ideia?
Em 2014 fizemos um levantamento sobre as pesquisas sobre quadrinhos e descobrimos que a grande maioria de estudos acadêmicos (monografias, dissertações e teses) estavam na área de educação. O Prof. Dr. Thiago Modenesi (FG/PE) já havia montado uma coletânea sobre “Quadrinhos e Educação” com cinco trabalhos de pesquisadores que atuaram na área (no qual eu participo e ele mesmo, tendo feito uma dissertação e uma tese em Educação focando as HQs) naquele mesmo ano e, após algumas conversas, resolvemos montar a coletânea “Quadrinhos e Educação”, para reunir os trabalhos destes pesquisadores. Em 2015, lançamos os volumes 1 e 2 com trabalhos de trinta e seis pesquisadores brasileiros e estrangeiros. E, agora, no primeiro semestre de 2016, lançamos o terceiro volume com mais dez artigos de pesquisadores de diversas regiões do Brasil. Já estamos trabalhando no volume 4.
Os professores têm dificuldades em assumir o uso de HQs na sala de aula?
Em princípio, sim. Pois ainda há muito preconceito por parte do tipo de leitura ser considerada infantil ou juvenil e de um entretenimento fugaz. Mesmo quando eles não têm esta perspectiva, encontram dificuldade em conhecer este universo gigantesco de publicações. O que os professores devem fazer é consultar aqueles que mais conhecem os quadrinhos, os grandes especialistas no assunto: os jovens leitores. São os próprios alunos que conhecem centenas de publicações. A seleção ou busca de material deve começar entre os alunos que podem vasculhar suas memórias e coleções no encontro de material de relevância para as aulas. Obviamente, os professores que são leitores de histórias em quadrinhos possuem uma facilidade muito maior em introduzir as temáticas e as dinâmicas envolvendo o material.
Quais são as idades que mais leem HQs?
Depende do local/região e dos gêneros de publicação. Os estudos de recepção mostram que é extremamente diversificado e muito restrito a determinados segmentos. Entre os quadrinhos infantis, como Turma da Mônica, estão as crianças até 12 anos; já entre os quadrinhos de super-heróis, jovens dentre 14 e 24 anos. Isto é, os segmentos etários variam conforme o gênero de publicação. Mesmo assim, há membros de quase todas as faixas etárias em cada segmento.
Os quadrinhos favorecem a leitura de outros segmentos editoriais?
Depende do tipo de quadrinhos e do público-alvo. Nos quadrinhos infantis, não. Já nos quadrinhos undergrounds, sim. Não há uma correlação significativa entre estes dados. Os quadrinhos não podem ser vistos como uma ponte para um tipo de acesso literário. Ele é um gênero independente. Seu consumo não facilita ou caminha para o consumo de outros materiais, necessariamente.
Como está o mercado de HQs no Brasil?
O mercado brasileiro anda em pleno processo de desenvolvimento. Não tem a mesma estrutura de mercados consolidados como o japonês, o europeu ou o norte-americano, mas caminha num processo, um pouco estável, mas crescente. Hoje, muito mais que nas últimas duas décadas, é mais fácil produzir e publicar no Brasil, muito devido às iniciativas coletivas (como o financiamento coletivo) e aos recursos cibernéticos (como o uso do facebook e de blogs para publicar webcomics e webtiras). Ainda é muito difícil viver profissionalmente deste segmento (são poucos os que conseguem), mas as vagas estão aumentando e a mentalidade comercial das empesas, se modificando, mesmo que devagar.
Quais os seus quadrinhos preferidos?
Devido à minha atuação como pesquisador de quadrinhos, termino lendo de tudo e não tendo um segmento preferencial. Mas tendo a consumir com mais intensidade e prazer os quadrinhos japoneses, os mangás.
Quando começou a gostar do tema?
Como boa parte dos jovens, comecei a ler quadrinhos na pré-adolescência. A prática me levou ao colecionismo e, por conseguinte, a um clube de colecionadores de quadrinhos em Recife, chamado Nanquim. Neste grupo, começamos a desenvolver praticas de discussão sobre este universo e de pesquisar publicações diferentes. O grupo cresceu e se institucionalizou, realizando diversas exposições sobre o tema, por volta do início da década de 1990. Isso me levou à pesquisa acadêmica, e a realizar um mestrado e um doutorado sobre quadrinhos na área de sociologia.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Novo Artigo: O Humor dos Mangás e a Educação para a Diversidade Sexual e de Gênero





Acabou de sair a nova edição da Revista 9ª Arte.
Entre os artigos, consta um meu, intitulado: "O Humor dos Mangás e a Educação para a Diversidade Sexual e de Gênero"



O Humor dos Mangás e a Educação para a Diversidade Sexual e de Gênero 
Nona Arte: Revista Brasileira de Pesquisas em Histórias em Quadrinhos. , v.5, n.1, p.33 - 44, ago. 2016. São Paulo: ECA-USP.  ISSN - 2316-9877

[artigo completo: acesse aqui] 

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Quadrinhos Intuados começa hoje em João Pessoa (PB)!


Hoje é a abertura do 2º Quadrinhos Intuados. Segue abaixo a programação completa de quadrinhos e quem quiser ver o resto da programação pode acessar na página http://agostodasletras.tumblr.com/2016programacao

SEXTA (12/08/2016)
18h30: Abertura da exposição do 4º Salão Nacional de Humor José Lins do Rego
19h00: Conversa com os quadrinistas convidados do evento
SÁBADO (13/08/2016)
08h às 12h: Oficina de narrativa visual com Dharilya
14h às 15h: OuBaPo na Gibiteca
15h às 17h: Bate-papo “Jornalismo e crítica de HQs”, mediado por Alex de Souza com Audaci Junior (PB), Thomaz Rocha (CE), Mariamma Fonseca (BA)
17h às 18h: Quadrinhos e Ação
18h às 20h: Bate-papo “Quadrinhos na Academia”, mediado por Allana Dilene com Henrique Magalhães (PB), Amaro Braga (AL) e Bruno Alves (PE)
DOMINGO (14/08/2016)
08h às 12h: Oficina de roteiro com Pablo Casado (AL)
14h às 15h: OuBaPo na Gibiteca
15h às 17h: Bate-papo “Mangás brasileiros”, mediado por Paloma Diniz com Dharilya Sales (CE), Amaro Braga (AL) e EUDETENIS (RN)
17h às 18h: Quadrinhos e Ação
18h às 20h: Bate-papo “Webcomics e a divulgação do quadrinho nacional”, mediado por Marcelo Soares com Felipe Portugal (MA), AnaLu Medeiros (RN), Caio Oliveira (PI)
Todas as atividades acontecerão nas dependências da Gibiteca Henfil, no submezanino 2 do Espaço Cultural José Lins do Rego.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Livro Novo: Quadrinhos & Educação, Vol. 3: Fanzines, Espaços e Usos Pedagógicos


APRESENTAÇÃO:
OS QUADRINHOS E SEUS DIVERSOS USOS NA EDUCAÇÃO


Estas últimas décadas têm reservado às histórias em quadrinhos um novo espaço de prestígio social. Seu ethos, através de seus personagens característicos, temas e enredos das publicações de diversos anos anteriores, ganham cada vez mais, o conhecimento do público através da cultura geek (antiga cultura nerd), amplamente representada nos objetos midiáticos de entretenimento como séries televisivas e filmes no cinema.

Esta invasão e apropriação é um exemplo de como as Histórias em Quadrinhos (HQs) (re)despertaram o interesse da população. Foi-se o tempo em que os colantes coloridos e seus temas sci-fi eram sinônimos de exotismo, alienação social ou deseducação.

Não se trata mais de encarar estas publicações como objetos de um mero entretenimento. Suas potencialidades educacionais, sejam elas pedagógicas ou andragógicas, são amplamente divulgadas e despertam o interesse de diversos profissionais, tanto do ponto de vista econômico-financeiro, mas artístico-acadêmico e, por conseguinte, educacional.


Nestas mesmas últimas décadas, você leitor deve ter se deparado com diversas publicações que analisavam, e exaltavam esta relação proximal que as HQs têm com o ambiente pedagógico. E, algo que atesta isso, é ter em mãos este terceiro volume da coletânea Quadrinhos & Educação. Uma iniciativa desenvolvida em 2014 que resultou nos dois primeiros volumes publicados em 2015, e segue, impetuosamente, o labor de transcrever em palavras o esforço de diversos pesquisadores, jovens e experientes, que investigam esta relação proximal das HQs com o ensino e a aprendizagem.

Neste terceiro volume, reunimos os artigos em três blocos temáticos. O primeiro concentrou uma série de artigos que descrevem a relação que as HQs têm com o universo de produção do fanzine – aquelas publicações artesanais que circulam em diversos ambientes, mas, principalmente, os chamados alternativos, sobre temas mais diversos e cuja linguagem das HQs é uma base comum. O geógrafo Clézio dos Santos nos apresenta um relato sobre o uso da técnica de produção de quadrinhos, por vias da publicação de fanzines, no conhecimento de aspectos geográficos da região que ladeia os jovens frequentadores da oficina na região da baixada fluminense. Sua análise, inclusive, atesta que a feitura destas publicações não apenas atende o aspecto da educação não formal sobre o lugar, mas é, ao mesmo tempo, um veículo de construção da identidade social e cultural do grupo. Da mesma forma, o pedagogo Marcio Garcia, segue mostrando como a produção de fanzines vinculados à produção de HQs possibilitou discutir o ensino de química entre adultos. Estes meios permitiram ampliar a capacidade cognitiva dos alunos e sua autonomia, como demostra no relato de sua oficina. Finalizando o bloco, temos o levantamento de como as HQs e os fanzines vêm sendo usados, tanto por inciativa institucional, quanto por publicações independentes, para ensinar temas relacionados à ciência e à saúde no Brasil, produzida pela bióloga e fanzineira Danielle Fortuna em parceira com seus orientadores e médicos Paulo Vasconcellos-Silva e Tania Araújo-Jorge. Onde se expõe as estratégias metodológicas utilizadas para a publicação deste material.

Artigo de Danielle Barros

O segundo bloco avalia os espaços pedagógicos das HQs, tanto aqueles relativos ao espaço interno da unidade escolar (sala de aula), quanto àqueles que, longe da escola, se tornam espaços de recepção dos escolares. Começamos com os relatos de vivências das pesquisadoras: a linguista Daniela Marino e a historiadora Natania Nogueira sobre as gibitecas (bibliotecas especializadas em quadrinhos) como espaços de formação de leitores, descrevendo tanto as ações que ocorrem na gibiteca de Santos (SP), quanto as de Leopoldina (MG). O espaço externo da relação leitor e HQ é apresentado pelo geógrafo Fábio Paiva e pelo historiador Thiago Modenesi ao desenvolver um estudo de recepção sobre como os quadrinhos de super-heróis possibilitam relações de aprendizagem, enfatizando sua influência positiva presente nas falas dos entrevistados. O historiador Thiago Modenesi retorna, desta vez numa parceria com a linguista Rosa Casella com o intuito de avaliar como as HQs infantis podem ser usadas em sala de aula como ferramenta de aprendizagem na educação infantil, defendendo como avaliar o tipo de material para o tipo de aluno é decisivo para promover aulas mais dinâmicas e despertar o prazer no processo de aprendizagem, aspectos necessários em todos os níveis de ensino, principalmente, o infantil. 

O terceiro, e último bloco desta coletânea, concentra suas análises nas potencialidades de uso pedagógico das publicações de histórias em quadrinhos. São relatos e análises que privilegiam obras em específico e enfatizam seus usos educacionais. O design Ranieri Dib faz uma avaliação do álbum “Avenida Paulista” de Luiz Gê, enfatizando sua dimensão historicista na narrativa de formação urbana e arquitetônica de São Paulo, no qual a HQ não é apenas um documento histórico dos fatos ocorridos, mas um documento imagético que orienta o leitor a identificar, visualmente, a relevância dos elementos históricos, haja visto que muitas das sequencias são sem texto e demandam do leitor um acompanhamento visual do processo. 


O ensino de história volta a ser foco no trabalho da bióloga e desenhista Janaína Araújo em parceira com o sociólogo Amaro Braga que diagnosticam os potenciais tanto criativos quanto instrucionais do mangá Hetalia e seu processo pioneiro de personificação antropomórfica de países onde a Segunda Guerra Mundial se torna um conflito social ambientado numa unidade escolar japonesa. Tem meio melhor de explicar as crises de política internacional naquele século que por vias das crises juvenis, facilmente identificadas por leitor contemporâneo?! O que a dupla defende é o uso do mangá como um recurso cativante e facilitador da aprendizagem deste processo, extremamente humorístico, normalmente desconhecido do professor. E é o humor o tema do trabalho seguinte, onde o sociólogo Amaro Braga retorna, desta vez numa parceria com a linguista Denise Margonari, ao analisar como a linguagem do humor que impregna as tiras em quadrinhos cujos temas, personagens e enredos envolvem a população LGBTT - Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros. A dupla faz uma varredura destas publicações e defende que tais materiais são ideais para desenvolver uma educação para a diversidade sexual e de gênero conforme indicação dos PCNs – Parâmetros Curriculares Nacionais.  

E, por fim, finalizando a seção, o historiador Savio Lima, exemplifica uma aula sobre a África, em cumprimento da Lei 10.639 – que prevê o ensino da cultura e história afro-brasileira e africana em sala de aula – com um álbum em quadrinhos especifico: “Tintin no Congo”, uma bande dessinée (como são chamados os quadrinhos franco-belgas na Europa) que recebeu muitas críticas pelo discurso racial do povo africano. Sua análise recai ao professor como um guia de leitura e implementação, enfatizando seus aspectos e pontos importantes de referência numa aula – ações desejadas para a implementação, por parte dos professores, destes materiais.

Artigo de Amaro Braga e Denise Margonari


Obviamente, nossa coletânea não tem o intuito de encerrar quaisquer discussões sobre a relação Quadrinhos e Educação. São muito mais uma contribuição para alimentar o espaço de discussão sobre o tema, assim como, guiar os interessados que visem promover, na prática, estas mesmas dimensões. Como uma boa história em quadrinhos, as aventuras estão apenas começando. Este é apenas o terceiro capítulo de uma série que está muito longe de acabar...
Boa leitura!

Prof. Dr. Amaro Xavier Braga Junior
Prof. Dr. Thiago Vasconcellos Modenesi





Quadrinhos & Educação, Vol. 3Fanzines, Espaços e Usos Pedagógicos
[Coletânea de Artigos]
2016 | 179 páginas | ilustr.|
R$ 30,00
(frete grátis e pode parcelar em até 3x)

        Bloco 1: Quadrinhos, Fanzines e Propostas Pedagógicas

OS FANZINES COMO RECURSO DIDÁTICO NO CONTEXTO UNIVERSITÁRIO DA BAIXADA FLUMINENSE: NARRATIVAS E REPRESENTAÇÕES DOS BAIRROS | 11
Clézio dos Santos

OS SABERES NA FORMAÇÃO DOCENTE: A PRODUÇÃO DE FANZINES NO CURSO DE LICENCIATURA EM QUÍMICA | 27
Marcio Roberto da Silva Garcia

QUADRINHOS E FANZINES NO ENSINO DE CIÊNCIAS
E SAÚDE NO BRASIL: MAPEAMENTO E CARACTERIZAÇÃO DAS PUBLICAÇÕES E METODOLOGIAS | 39
Danielle Barros Silva Fortuna 
Paulo Roberto Vasconcellos-Silva 
Tania Cremonini de Araújo-Jorge

       Bloco 2: Quadrinhos e seus Espaços Pedagógicos

GIBITECAS COMO ESPAÇOS DE FORMAÇÃO DE LEITOR E EXERCÍCIO DA CIDADANIA | 67
Daniela dos Santos Domingues Marino
Natania Aparecida da Silva Nogueira

EDUCAÇÃO NAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS DE SUPER-HERÓIS:
A PERCEPÇÃO DOS LEITORES | 79
Fábio da Silva Paiva
Thiago Vasconcellos Modenesi

AS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS NA EDUCAÇÃO INFANTIL COMO FERRAMENTA DE APRENDIZAGEM | 93
Rosa Alicia Nonone Casella
Thiago Vasconcellos Modenesi

Bloco 3: Quadrinhos e seus Usos Potenciais na Sala de Aula

AVENIDA PAULISTA: EDUCAÇÃO EM FORMA DE QUADRINHOS | 109
Ranieri Lima Dib

PERSONIFICAÇÃO DE ESTEREÓTIPOS EM HETALIA:
AXIS POWERS E O ENSINO DE HISTÓRIA GERAL NO BRASIL | 119
Janaina Freitas Silva de Araújo
Amaro Xavier Braga Jr 

O HUMOR DAS TIRAS-EM-QUADRINHOS NA EDUCAÇÃO PARA A DIVERSIDADE SEXUAL | 143
Amaro Xavier Braga Jr 
Denise Maria Margonari

Tintin no Congo e a Lei 10.639: conflitos e acordos para aplicação em sala de aula | 161
Savio Queiroz Lima