[Prefácio] "Entre as páginas do Labirinto"

 


Se você gosta de Jorge Luis Borges e H.P. Lovecraft, precisa conhecer a nova HQ do desenhista Paraguaio Roberto Goiriz publicada pela Editora Quadriculando em parceria com a editora Anita Garibaldi, chamada "Labirinto", uma iniciativa do atual maior editor de quadrinhos latino-americanos no Brasil, o Pesquisador Prof. Dr. Thiago Modenesi.

Além de homenagear esses dois escritores, a HQ ainda tem uma forte critica social, sobre capitalismo e exploração da força de trabalho. Tive a oportunidade de fazer o prefácio desse material, afinal, quadrinhos e terror são meu café-com-leite matinal, né?

Eu já fiz outros prefácios antes para outros quadrinhos, meus e de conhecidos. Esse é o meu segundo prefácio para a Editora Quadriculando. O primeiro foi para a HQ "Vermelho como a neve". Espero que venham mais. Fico muito animado em escrever sobre quadrinhos em uma perspectiva de leitor e não apenas de pesquisador. Tecer comentários sobre os quadrinhos buscando despertar o interesse do leitor e aflorar suas potencialidades é deveras prazeroso. 

Veja aqui o texto:

Prefácio

Entre as Páginas do Labirinto

Há lugares que não são o que parecem. Lugares onde as paredes sussurram, os corredores respiram e as palavras não estão apenas escritas. Estão vivas. A história dessa HQ que você tem em mãos começa em um desses lugares: uma biblioteca (eu, sei, um lugar quase mítico nos dias atuais…). É um lugar. Mas você verá que é uma construção erguida não de concreto, mas de capítulos, poemas, tratados e tragédias. Tudo empilhado como tijolos do esquecimento. 

Em algum ponto entre o cansaço do dia a dia e o sonho de uma vida melhor, alguém pode se encontrar aceitando um emprego sem fazer muitas perguntas. Afinal, trabalho é trabalho e livros são inofensivos… ou assim pensamos. E se os livros não forem apenas objetos, mas alicerces? E se, ao organizá-los, estivermos inconscientemente erguendo não um santuário do saber, mas uma prisão para algo antigo, algo que dorme entre as linhas e aguarda apenas a combinação certa de palavras para despertar?

Em “Labirinto” o horror não vem de monstros de tentáculos e sangue. Vem do cotidiano. Do relógio que marca horas infinitas, do salário mínimo que mal paga o pão, da sensação de que você é apenas uma peça em uma máquina cujo propósito desconhece. Onde a principal preocupação do trabalhador comum é saber se será pago ou não. É um horror que homenageia tanto o futebol, quanto o estilo lovecraftiano (como entidades antigas, criaturas tentaculares e grimórios feito de papel, sangue e tinta), onde a burocracia e a exploração se misturam com o sobrenatural de uma forma tão natural que chega a ser… cômica. Sim, há humor aqui. Do tipo seco, irônico, que surge quando um trabalhador pergunta: “Cadê meu pagamento?” enquanto algo rasteja nas sombras atrás de uma pilha de enciclopédias. 

O Jorge desta história, tal qual o consagrado Borges da literatura, adentra na metaficção, perdendo-se nos labirintos  de suas bibliotecas infinitas. Os trabalhadores estão construindo algo perigoso sem entender completamente e há elementos sobrenaturais envolvendo as coisas mais assustadoras da realidade antiga e atual: livros. E nesse campo, trabalhadores e patrões estão de lados opostos quando se fala em despertar um mal antigo (qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência). Mas Jorge é uma metáfora de todos nós: passar pelas vicissitudes nos transforma de trabalhador alienado em leitor crítico. E isso é poesia. Não aquela poesia dos sonetos delicados, mas a que nasce da resistência silenciosa. A que habita no gesto de guardar um livro no bolso, de ler à luz de uma lâmpada fraca, de acreditar que as palavras podem ser um escudo  (ou uma arma!). Porque, no fim, esta é uma história sobre o poder das narrativas. Sobre quem controla as histórias e quem pode reescrevê-las.

Às vezes, o labirinto mais perigoso não é aquele feito de paredes, mas de ideias. E a única saída é continuar lendo… mesmo quando as páginas parecem sussurrar seu nome em vozes que não são humanas e o custo é sua sanidade.

Esta HQ tem uma narrativa visual e textual muito rica, com várias camadas de significado. A crítica social (trabalho precário, alienação) se mistura com uma reflexão profunda sobre literatura e poder. 

O final é particularmente brilhante e merece toda a sua atenção, afinal, o conhecimento advindo dos livros, na ficção e na vida real, sempre serão armas contra a opressão.

Prepare-se para adentrar um lugar onde cada livro é uma porta e a "verdade" das palavras é a salvação. Algumas levam a mundos de aventura; outras, a abismos. E algumas… bem, algumas não deveriam nunca ter sido abertas. 

O paraguaio Roberto Goiriz enfatiza em sua narrativa, algo que é bastante conhecido: a ideia de que palavras podem tanto oprimir quanto libertar. Por isso, você precisa entender que a referência ao Borges e ao Lovecraft não são apenas decorativas, mas estruturais para a trama. E como nas boas películas, há diversos "easter eggs" de ambos os autores, espalhados nessas páginas. Divirta-se descobrindo onde eles estão. Mas tome cuidado, nunca se sabe ao certo que se esconde no verso de uma página de quadrinhos... Como diriam os antigos: Que as palavras te protejam.

Prof. Dr. Amaro X. Braga Jr.

Amaro, entre uma aula sobre rituais tribais e uma sessão de Arkham Horror, escreve ensaios e artigos acadêmicos sobre quadrinhos e costumes e se aventura nos contos de terror, coisas tão díspares que muitas vezes se confundem na sua biografia. Nas horas vagas atua como professor na Universidade Federal de Alagoas (depois de não ter sido aceito na Universidade Miskatonic). 

Gostou? Ficou interessado? Acesse o site da editora e garanta já seu exemplar: 

https://www.quadriculando.com.br/labirinto 


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