[Banca Qualificação Doutorado] Entre traços, linhas e silêncios: o que uma banca de qualificação me ensinou sobre autismo e quadrinhos?



 

Entre traços, linhas e silêncios: o que uma banca de qualificação me ensinou sobre autismo e quadrinhos?


Nesta última semana de abril de 2026, tive o privilégio de integrar a banca de qualificação de doutorado de Alessandra Hypolita Drumond Valle Silva Lopes, conhecida no meio artístico como Mhorgana (@mhorganaalessandra), apresentada no Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagens do CEFET-MG. O título da tese (ainda provisório): Entre traços, linhas e silêncios: o invisível do autismo em quadrinhos e a construção da experiência neurodivergente, já antecipava a profundidade e a sensibilidade do trabalho que teríamos pela frente.

Para mim, foi impactante, pois acabei de ter um filho (um adulto de 23 anos de idade)diagnosticado como Autista de nível 1, após um bom tempo de investigação. Então, teve um peso especial pra mim. 

A proposta, ainda em desenvolvimento, se propõe a analisar representações e autorrepresentações do autismo em histórias em quadrinhos nacionais e internacionais, sob a lente do paradigma da neurodiversidade. A escolha do corpus é ambiciosa e necessária: Alessandra mapeia dezenas de obras, desde clássicos como Nori e eu até produções independentes e webcomics brasileiras, passando por referências internacionais.

Como avaliador, fiquei impressionado com a solidez teórica dos dois primeiros capítulos, que cobrem desde a história do autismo como categoria clínica até a gramática visual dos quadrinhos (McCloud, Eisner, Groensteen). A metodologia qualitativa, orientada por eixos analíticos claros (narrativo, visual e discursivo), mostra um cuidado que honra a complexidade do tema.

Mas, como em toda qualificação, os desafios também estiveram na mesa. A tese ainda tem capítulos analíticos inteiros por escrever . Ainda assim, foi uma banca rica e generosa. Alessandra tem uma trajetória incomum: é psicóloga clínica, quadrinista, editora e atua no campo da neurodiversidade há quase três décadas e, achando pouco, adentoru à carreira de pesquisadora, estando prestes a concluir sue doutorado. Essa implicação pessoal e profissional, longe de ser um viés, é uma força bastante significativa.

No fim, aprovamos a qualificação. Agora, o desafio de Alessandra é transformar o vasto levantamento de obras em análises profundas, dar voz às histórias em quadrinhos que nascem da experiência autista e mostrar, efetivamente, como traços, linhas e silêncios podem construir um novo olhar sobre a neurodivergência.

Saí da banca com a certeza de que a tese final, se bem conduzida, será uma contribuição original e necessária, tanto para os Estudos da Linguagem quanto para a luta por representações mais justas do autismo na cultura e no cenário das Histórias em Quadrinhos brasileira.

Aguardarei ansiosamente a versão final. E, quem sabe, o futuro quadrinho que a Alessandra fará como fruto dessa sua pesquisa.

Não tenho a resposta para a pergunta-título. Ficarei em silêncio, no aguardo da banca de defesa, que espero estar presente. 

Ai, volto para responder. 

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